E há tempos não se ouvia falar dele.
Mais conhecido como “A Sombra de Houdini”, o grande Serj Iderpa vivia recluso há anos por motivos até hoje desconhecidos. Era um rapaz robusto e arrogante que fez fama e dinheiro revivendo e desafiando as grandes fugas de Harry Houdini. Após um fatídico episódio envolvendo uma de suas apresentações, Serj sumiu sem dar notícias. Dizem os mais velhos que ele estava confiante demais e se jogou rápido demais. O que deixou Serj realmente frustrado, dizem os mais velhos, é que ele não esteve perto de se afogar, que tudo foi tão rápido e rasteiro que não chegou nem a haver emoção do perigo de beijar a face da morte. A falta de sentimentos verdadeiros o abalou. Desde então o “Fabuloso Serj” virou mito e suas famosas fugas, lendas a serem contadas após o jantar.
Londres vivia tempos tranqüilos quando, sem mais nem menos, vários cartazes amanheceram colados pela cidade, nas portas dos pubs, nas escadas do metrô e em outros locais de grande movimentação.
“O grande Serj está de volta!” – Era o que dizia o cartaz, logo abaixo de uma foto em preto e branco de um homem de costas usando um maiô antigo e listrado. Ninguém sabia apontar com certeza se o homem da foto era o lendário Serj Iderpa.
Milara Afuj era uma moça que não queria ser moça. Gostava da juventude, mas sua cabeça andava automaticamente à frente e isso não a incomodava. O que incomodava eram os comentários da família e das amigas sobre sua mente diferente e incontrolavelmente desafiadora das ordens da época. Suas manias assustavam seus pais e seu carinho e tranqüilidade deixavam qualquer um intrigado. “A vida é muito mais que vestidos e posturas” dizia a menina de olhos espertos e sorriso grande.
Faltava aos pontuais chás das cinco para passear pelas ruas cinzas e divagar sobre o contraste que faziam os vermelhos intensos ou os verdes brilhantes das cortinas nas confeitarias. Distribuía abraços e sorrisos mesmo nos dias mais chuvosos e melancólicos. Milara estava decidida a enfrentar a vida com todo o amor que conseguia tirar de si.
Assim como tudo que lhe era novo na vida, o cartaz do suposto retorno de Serj atraiu sua curiosidade juvenil. Arrancou um da esquina de sua casa, dobrou com cuidado de maneira que a chamada e a data ficassem a mostra. Mostrou para os amigos que não fizeram muita questão. “É só um velho querendo aparecer” diziam os menos curiosos. “Meus pais vivem falando dele” comentavam os mais atentos, mas igualmente desinteressados. “Não faço questão de ir ver alguém se suicidar em público” diziam todos.
A calma de Milara era tamanha que não se abalou com a falta de empolgação e companhia. Na verdade, ela nem chegou a dar ouvidos para os comentários alheios e continuou andando solitária com o cartaz no meio dos livros que levara consigo. Estava decidida a ver a atração e estava decidida a fazer daquele evento algo que mudasse sua vida de alguma maneira positiva.
Na data, lá estava Milara a caminho do rio Tâmisa, perto do parlamento, onde estava marcada a volta triunfal do “Fantasma de Serj”, como apelidaram alguns.
Havia tempos que não se fazia um frio daqueles.
E há tempos não se sentia com o coração apertado daquele jeito.
Estava parada no gramado, tremendo de frio mesmo com o casaco preto e uma flor decorativa na boina também preta. Algumas pessoas já estavam reunidas próximas ao furgão antigo. Não se via sinal do tal Serj, mas podiam ver dois ajudantes abrindo as portas de trás do furgão e tirando de lá um cubo de vidro grande e algumas correntes pesadas e com algumas ferrugens. Depositaram o cubo pesado no chão e deixaram o local assim, como num passe de mágica.
A pequena multidão começava a se apertar para ver e um pequeno grupo de policiais sem expressão rondavam o local com seus chapéus presos em seus queixos. Havia um ar de curiosidade em alguns, de nostalgia nos mais velhos que lembravam de dias mais felizes, quando artistas viajantes simplesmente paravam em uma rua qualquer para demonstrar suas peripécias ou seus dotes com pincel, comidas e outras traquinagens. Naquele tempo, tudo era novidade e todos eram mais inocentes, deixando-se levar pela maré de novas emoções e pensamentos.
Um anão misterioso de cabelos enrolados e óculos de aro grosso desceu rapidamente da traseira do furgão dando cambalhotas e correndo ao redor de algumas pessoas, aproveitando-se da baixa estatura que tinha para abraçar as coxas de algumas damas que davam pulos assustados e sorrisos amarelos, evitando escândalos “desnecessários”. Após toda a brincadeira, o anão seguiu calado até o furgão e retirou uma mangueira de dentro da traseira, levando-a até o cubo de vidro grosso e fixo em hastes de metal já sem o brilho de outros tempos, mas com a mesma força de evitar que água alguma escape do misterioso cubo durante a apresentação que estaria pra acontecer. A mangueira, após ter sua ponta devidamente apontada pra dentro do cubo, jorrou um líquido espesso e levemente tomado de um tom dourado. O anão sorriu para a platéia e saiu correndo rumo ao nada, desaparecendo também da vistas cada vez mais curiosa do aglomerado que ficava cada vez maior.
Após um tempo que não levou mais de dez minutos, o cubo estava com líquido à pouco mais de dois dedos da borda e, sem que ninguém avisasse, o líquido espesso e dourado secou e a mangueira caiu no chão sem que fosse puxada. Bem no centro dessa multidão, um bater de palmas começou a chamar a atenção de quem estava ao redor e as pessoas mais próximas começaram a se afastar e a atenção foi focada num homem de cartola, sobretudo negro e luvas de couro. Estava com a cabeça abaixada e os pés juntos, bem plantados no gramado pisoteado. Parou de bater palmas, retirou as luvas como se o tempo não existisse (ou o tempo parou para as pessoas ao redor que quase morriam de curiosidade e tentação de ir ajudar o homem que não tinha a mínima pressa com a vida), guardou-as no bolso do sobretudo e retirou a cartola enquanto já caminhava. Foi até a frente do furgão preto e depositou, tanto a cartola quanto o sobretudo.
Milara mal cabia dentro de si com tantos pensamentos. Respirava toda a ansiedade e sua ingenuidade juvenil vinha à tona com toda força, transbordando pra fora do seu sorriso incontido e sincero. No momento em que viu Serj Iderpa virando-se para o público que o aguardava, e curvando-se delicadamente para cumprimentá-los, bem naquele momento, um novo dia se apresentava diante de seus olhinhos felizes. A salva de palmas da multidão que retribuía o cumprimento do homem que lhes apresentava de maiô antigo e listrado em preto e branco não chegavam aos ouvidos da menina que não queria mais ser menina.
Serj estava parado vendo pessoas novamente. Passou um bom tempo mergulhado em intensa solidão e quase desacostumara com os aplausos e a atenção voltada para si. Seus olhos cansados tornaram-se vívidos de novo no preciso momento que conseguiu observar, meio longe, uma flor decorativa na boina de uma menina de pele clara e bochechas rosadas (ficou se perguntando se as bochechas da moça eram daquela coloração por natureza ou devido ao frio daquela tarde). Sua alma foi consumida de uma excitação sem precedentes e um sorriso brotou em seu rosto sem que ele percebesse.
Automaticamente ele deu uns passos a frente e encarou a menina que, do mesmo modo instintivo, aproximou-se da linha de frente formada pelas pessoas mais empolgadas com o espetáculo. Ambos estavam agindo sem que suas mentes mandassem, sem que a racionalidade os auxiliassem. Havia um poder maior regendo tais movimentos.
Serj foi o primeiro a voltar para a sua consciência e retomou o rumo para frente do cubo de vidro cheio de líquido dourado (nesse momento já não existia mangueira caída perto do cubo. Desaparecera sem que alguém desse conta). Seus dois ajudantes eram morenos, magros e muito parecidos. Faziam quase os mesmos movimentos, mas Serj sabia distinguir quem era um e quem era o outro. Juntos, os ajudantes aprisionaram o lendário Serj Iderpa com as correntes enferrujadas, mas grossas o suficiente para criar expectativa e até certo pânico em alguns. Prenderam as correntes em seus punhos, em seus calcanhares, fizeram voltas e mais voltas em seu tronco corpulento e “decoraram” os elos com vários cadeados de cor prata. Saíram novamente para sumir em instantes, logo após ajudarem Serj a ficar sentado na beira do cubo. O Intrépido Serj deu uma última olhada na platéia que nesse momento fazia um silêncio descomunal.
Havia tempos que não se fazia um frio daqueles.
E há tempos que o vento cantarolava misteriosamente desse jeito.
Ficou ali sentado e acorrentado por alguns minutos, enquanto as pessoas se remoíam em desespero. Mãos suavam dentro dos bolsos, dentes cerravam e músculos enrijeciam. Serj olhava para o alto, para o cinza que tomava conta dos céus acima de todas as cabeças. Respirava o ar frio da tarde e tentava memorizar a imagem que vira há pouco. Desceu a vista para todos novamente e deixou o corpo pender para trás. O som da água tomou conta do ambiente e logo começou a travar uma briga não muito intensa com o silêncio que teimava em pairar. Como Serj quase não se mexia, a água fazia sons quase surdos.
Tudo aconteceu rápido demais, mas desta vez com intensidade suficiente pra mudar tudo. Serj ficou dentro do líquido e parecia não tentar fuga alguma. O líquido dourado foi ficando cada vez mais calmo e os movimentos de serj, praticamente nulos. Os ajudantes não voltavam e não se teve mais notícia do anão de óculos. Foi preciso que três homens corressem e puxassem Serj de dentro do cubo. O corpo estava mais pesado e inerte. Serj não chegou a se afogar, mas a falta de ar o fez perder a consciência e, se não fossem esses três homens, não se sabe o que poderia ter ocorrido.
Milara assistira tudo sem se mover. Apenas deixou os braços amolecerem e seus livros caíram deixando o cartaz dobrado com cuidado de maneira que a chamada e a data ficassem a mostra voar com o vento forte. Viu o homem encantado lhe encarando, vira sua alma e sentira o calor que emanava dela. Vira o corpo enérgico pendendo para trás e ficando imerso no líquido dourado. Assistira os poucos movimentos, a falta de atividade dentro do cubo de vidro e a correria dos três homens. Percebeu sem sair do lugar a multidão assustada e revoltada dispersando e minguando. Resolveu se mexer só quando os três homens conseguiram acordar Serj e abandonarem o homem que lhes causara tanta preocupação. Os homens, após conseguirem fazer Serj abrir os olhos e dizer que estava bem, xingaram-no e abandonaram-no à sorte. Milara acompanhou toda a situação calada, sem saber como proceder nesse momento tão delicado.
Serj ainda ficou uns minutos deitado olhando pro alto com os olhos mortos e um sorriso completamente extravagante.
Milara voltou para pegar seus livros, abraçou-os com força contra o peito e ficou parada á frente do homem de maiô antigo e listrado que instigava toda a sua curiosidade.
“Por que você fez aquilo? Por que tentou se machucar lá dentro ao invés de resistir e conseguir escapar?” – Milara perguntou com toda a tranqüilidade que lhe era peculiar. Milara realmente não entendeu porque um homem que propunha uma coisa fez outra alheia a normalidade. Não perguntou com ar de reprovação. Só queria entender o que poderia ter acontecido.
“Após tantos anos – retrucou Serj Iderpa sem sair da posição em que estava – eu pensei que havia esquecido os tempos difíceis. Quando vi seu rosto, a sua pessoa, a alma através do sorriso teu, eu senti a necessidade de me machucar por dentro pra sentir algo mais que vida”. Ao contrário do que se imagina, Milara entendeu completamente o que Serj sentiu e o que pretendeu. Ela entendeu a essência daquele pensamento e sorriu meio envergonhada. “E quer saber? – Foi ótimo”. Essa foi a frase final de Serj praquele episódio.
Ficaram ali parados por mais alguns minutos, observando a nova vida que se formava diante deles. Não estavam com pressa de aproveitar essa nova sensação, não porque eram estúpidos demais para deixar escapar tal momento tão interessante, mas porque sabiam que era simplesmente inevitável escapar desse novo mundo que se coloria ao redor, nas coisas mais triviais e nos sentimentos mais recônditos.
Verdade ou fruto das suas idéias maravilhosas?
Daqui a pouco vejo livros teus.
Mais um momento iluminado de Jader Pires.
Belo texto rapaz.
Sempre surpreendente!
Gostei muito do texto.
Belíssimo texto!
Já virei sua fã…