Cada vez que ela mexia o cabelo, era como se eu morresse um pouco. Jogava as mexas extremamente lisas para trás com seus dedos finos de unhas sem esmalte. Era simples no jeito de ser, porém, tomada de uma segurança perturbadora. Costumava sentar-se na penúltima mesa das oito dispostas no local. Concentrava-se em um calhamaço de folhas enquanto atirava cigarros num cinzeiro já atolado de bitucas de diversas marcas e tamanhos. Não necessitava de afirmações ou falsos carinhos. Arrumava a franja que teimava em lhe cobrir os olhos, o nariz pequeno e o maxilar delicadamente arredondado enquanto comia algumas uvas.
Perdia várias conversas que na verdade nem me interessavam, para encará-la e decorar detalhes de seus movimentos. Suas bufadas ao ler o calhamaço de folhas da mesa, os cabelos teimosos escapando detrás da orelha para brincar na frente das letras, seu sorriso que fazia a língua se aventurar envergonhada pra fora da boca forçando uma discreta fechada maligna dos olhinhos negros. Ficava ali sentado meio a completos desconhecidos, bebendo de graça e aguardando o sinal de me retirar para que a verdadeira noite começasse.
Tinha costas esguias e sensualmente divididas por um vinco que descia até a base, onde duas cavidades delimitavam o começo de nádegas arredondadas e espantosamente belas para mulheres conhecidas por nascerem numa região onde não se tem bunda. Sempre levava uvas verdes para saborear entre um afago e outro, e para jogar na minha cara que as uvas de sua terra eram incomparavelmente melhores que as daqui. Levantava e ia se olhar no espelho, degustando suas uvas e arrumando a lingerie. O mais incrível é que não era vaidosa e tampouco egoísta. Era apenas tomada pelo momento, cuspindo com seus gestos sexualidades que a vida didática lhe privava. Naquelas horas, fechada naquele meu quarto alugado, sentia se bem andando de roupa de baixo e nada mais, explodindo em êxtase de um lado para o outro, mirando meus poucos gestos cansados e jogando risadas à toa pelo cômodo pouco iluminado. Assim como sua outra vida lhe obrigava de certa maneira, acabou por adquirir o hábito de falar em demasia. Não que isso fosse ruim, pois me agradava bastante ouvi-la falar por horas.
Contava histórias e explicava pensamentos enquanto eu, calado, canalizava a atenção em cada movimento, cada gesto seu. Eu não precisava de mais. Estava sempre nua ou seminua, desejando minha atenção e, de certo modo, minha opinião. Era o suficiente para eu não querer sair nunca mais daquele quarto. Às vezes ela colocava seu jeans velho e uma de minhas camisetas surradas e ia me buscar cigarros ou cerveja gelada. Voltava em minutos com uma sacola cheia de outras guloseimas e tinha sempre algum acontecimento no caminho que tinha de contar. Já abria a porta quase no meio de alguma narrativa fantástica e gargalhava sem pudores enquanto abria outra cerveja.
Eu via nela uma urgência de viver aqueles momentos com uma sinceridade tão plena, daquelas impossíveis de se aplicar num dia-a-dia em sociedade sem ser confundida com hostilidade, desespero ou deboche. Ela queria viver duas vidas. Uma por prazer, naquelas horas de conforto e liberdade em que brincava quase sem roupas depois de me deixar estirado na cama; e outra por falta de coragem, no resto do tempo em que exercitava a arte obrigatória de dissimular. Eu vivia dizendo que hora ou outra ela se cansaria de uma dessas duas facetas e, por fim, ela acabou provando que eu estava certo. Pagou três meses adiantados do meu aluguel e sumiu sem deixar sorriso ou sobrenome.
queria saber onde você encontra essas mulheres… lindo texto!
ai, estes amores modernos…
já diria um conhecido meu..”cuidado com as mulheres com olhos de vírgula” ,)
:*
Ai que vazio de não saber quem é ela… Quase consigo ver o rosto dessa fulana que sumira!
fucking great, Jader