Perspectivas lhe fugiam desgarradamente pelos campos imensuráveis da idéia. Na verdade quem se encontrava preso era ele próprio, acorrentado num estilo de vida desencantado. Sentado despretensiosamente na cadeira velha e barulhenta que muitas vezes tirava sua atenção das tarefas realmente dignas de foco.
Claro que seu pensamento era outro. Considerava todos aqueles rabiscos uma verdadeira perda de tempo, mas realizava que a vida era tão somente um infinito extravio do tempo útil. Considerava naqueles tempos inferiores que a dádiva da existência era, na verdade, um fardo espinhoso com a capacidade única de se sobrecarregar com ranços e lástimas. Nenhuma perspectiva lhe era palpável. Ficava personificando-as como ovelhas berrando ironicamente enquanto desapareciam no descampado frio que inventara.
Imaginava as palavras rabiscadas se entrelaçando, perdendo as formas e tornando-se grandes montes de lama azul, escorrendo pelo papel e respingando em suas roupas. Martelava o dedo na poça imaginária sobre o caderno e fingia sentir gotas quentes salpicando seu rosto inanimado e iluminado por uma luz amarela do abajur sem proteção, que o fazia suar por conta do calor da lâmpada apontada para a sua cara.
Levantou-se de hora pra outra, esquecendo as alucinações propositais e abriu a janela pra tentar se refrescar. Ficou admirado com a neblina que sitiava o apartamento, soltando um hálito frio pra dentro do quarto e devorando com aquela língua lisa a iluminação dos postes, os carros estacionados e já mastigava tudo que estava além das esquinas da avenida que morava. Percebeu a temperatura baixa e se agasalhou com uma jaqueta rasgada. Continuou olhando a neblina. Não via nada, mas continuou olhando. A neblina fazia bem. A neblina engolia sua melancolia. Ruminava calmamente e cuspia de volta em sua cara uma dor maior e menos identificável. Já secara o suor e a lágrima invisível. Rapidamente, também lhe secara a dor.
Achava-se grandinho demais para cultivar sonhos brandos e tinha fixo em mente que, mesmo sendo tudo aquilo uma grande falsidade que não o levaria a lugar algum, era de uma beleza engolfada em ludíbrio. A falsidade o fazia bem. Ou melhor, lhe fazia bem saber que a falsidade lhe fazia bem. Achava reconfortante saber que a falsidade lhe era, das sensações, a mais sincera. Voltou s sentar e a se distrair com o balido das perspectivas.
é foda ver que a tua escrita evolui, mas a temática, essa não muda por simples “falta de sorte”.
quero ver o que tu vai escrever quando enfim der certo.
torço muito por ti.
deu vontade de pôr no colo.
=*
uai, Pedro…a temática é mera questão de ponto de vista, que varia dependendo dele próprio.
penso que incluir a ”falta de sorte” nas gavetas da inspiração, só faz somar… né não? ou não!
gostei, vi imagens do começo ao fim.
bejo procê (ainda bem que v non mais doente)
e outro procê jader… e vamo que vamo
Curti. E curti o tema também.
tem gente que passa a vida inteira falando sobre uma coisa só e cada vez é diferente.
Apoio.
bjs
Primeira vez que visito
Parece-me que tu tinhas muitas palavras bonitas e frases nostálgicas, porém sem ter onde por tudo isso. Ou talvez essa tenha sido a impressão somente.
Escreves bem, parabéns, mas sou obrigada a concordar com o pedro sobre tua temática.
Gosto muito da temática. Concordo com o Eddie na questão de cada texto ser diferente, explorando perspectivas de um mesmo tema. Melancólico sim, mas bem estruturado e escrito.
Aprecio sempre =)
beijo