London Calling (Crônicas do Grito Vol. I)

Aqui nas terras Calientes Brasilis, peca-se pelo excesso. O povo peca comendo e peca desperdiçando. Peca nas roupas (pra mais e pra menos, muito menos), peca nas informações (turista sofre com as repetições de onde dobrar à direita) e até na corrupção a gente peca e deixa se fazer aquele alarde todo. O brasileiro peca. O brasileiro exagera. Mas enquanto somos (nós, os calientes-brasilis) estigmatizados como excessivos, o inglês cumpre o papel oposto.

Os britânicos são sintéticos e acabam se mostrando gélidos e mal-humorados. Eles pecam sim (eles, os gélidis britaniquis, como gostaria de enfatizar nosso saudoso Mussum, um caliente-brasilis de primeira), mas não podem ser punidos antes mesmo de uma defesa.

O londrino fala pouco, tem (na sua maioria) aquele sotaque almofadinha e possue regras curtas e diretas. No Underground (o metrô deles), por exemplo, experimenta só subir parado na escada-rolante pelo lado esquerdo. É peteleco na certa. Isso porque todo inglês sabe muito bem que, quem não está com pressa ou não aguenta o tranco, deve ficar do lado direito da escada, deixando a porção esquerda para os apressadinhos e mais atléticos. Os ingleses também sabem que, se encontrar um sujeito “caçando sapos” parado do lado esquerdo, é gringo (não o nosso gringo. O gringo deles, ou seja, a gente). Mas nem pelo infortúnio de nascer em outro lugar que não na ilha, esse tal merece uma colher de chá-das-cinco. É peteleco na orelha, cutucão nervoso e advertência seca e direta: “Stand on your right” (mantenha-se à sua direita, ou como eu gosto de supor, fica pra tua direita, ô mané). É um sistema de regras secas e diretas, mas que, diabos, funcionam bem pra cacete.

Não que a nossa confusão de filas e indicações exacerbadas não funcione, mas só são feitas de formas diferentes para diferentes pessoas (os brasilis e os britaniquis). Diferentes meios para um mesmo fim. Só que enquanto o inglês se orienta atentamente com as informações disponíveis ao redor, a gente faz aquele fuzuê ao pé da placa, querendo saber de cinco pessoas diferentes qual o nome da bendita rua. O inglês não gosta muito de perguntas, muito menos de respondê-las. Contudo, de um jeito ou de outro, o troço todo tem de dar certo.

Eu caminhava matutando a vida na Brick Lane, centro nervoso do East Side (lugar com vários restaurantes e casas noturnas). Estava por lá fazia um par de dias e vagueava justamente por fatos que me diferenciava dos ingleses e suas caras sisudas. Vi, enquanto perambulava, que deveria ser daí o cinza que faz a Londres ser tão cinza, mesmo com o verde forte e o vermelho intenso das cortinas dos estabelecimentos que eu passava em frente. O sorriso dos ingleses era tão marrom e preto como os tijolos que dão identidade tão característica aos prédios aglutinados daquela região. Ficava também fantasiando por ali algumas memórias falsas do tempo macabro em que a região era parque de diversões do Jack (o Estripador). Conseguia sentir o ar em estado de torpor que inundava aquelas noites doentias. E com toda essa meditação em movimento, quase que eu próprio faço daquela tarde, uma tarde fúnebre.

Andava a fitar uns telhados na esquina do Preem Restaurant quando meus pensamentos correram assustados com umas demonstrações de força gutural. Um cara de camiseta listrada e cabelo estranho vinha em minha direção com dois olhos embutidos em injúria e com a boca vomitando três letras repetidamente: “Hey…hey…hey”. Seu dedo em riste me fez olhar pra beira do asfalto e decifrar tudo no turbilhão que me fazia a mente em imagens, cores, palavras, signos, significados, sentidos. A beira do asfalto me avisava para olhar pro outro lado ao atravessar. A beira do asfalto estava gemendo Look Right (olhe para a direita, já que os ingleses dirigem na mão contrária) enquanto alguns carros passavam em velocidade irrepreensível a alguns palmos do meu passo. Percebi os gritos impacientes do mancebo de calças apertadas e brinco no nariz que me foi seco e direto: “You. Look right”. E com a mesma injúria nos olhos, ele se foi.

E eu ali, com os gritos ecoando na cabeça enquanto carros ingleses passavam na mão contrária nossa (e certa pra eles). Comunicação me foi, mesmo que no grito, pra inglês ver e pra caliente-brasilis ouvir.

2 Respostas

  1. meu…olha as ideias que v tem planando pela cabeça!
    adorei!
    beijo

  2. meu…olha as ideias que v tem planando pela cabeça!
    adorei!

    beijo

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