Tudo Mudar (Crônicas do Grito Vol. III)

Ela sabia que aquele e-mail era proibido. Sabia também que ninguém nunca olharia aquela mensagem e que ninguém nunca vasculharia qualquer sistema atrás de alguma correspondência daquelas. Mas sabia que aquele e-mail era proibido. Só que o resto aconteceu de forma automática.

“Você está linda hoje. Parecendo a Sininho…”

Não sabia exatamente como se portar, pois nunca havia ganhado galanteio algum no trabalho. Usava um vestido de verde escuro com uma faixa dourada delicada, mas decidida, que acentuava sua cintura moldada e graciosa. Tinha um corpinho muito bem medido e sustentado por um par de panturrilhas pequenas e fortes, desenhadinhas que dava até gosto. O sapatinho creme número 34 era o detalhe. Sempre usava sapatinhos que davam o detalhe do vestuário. Adorava e colecionava sapatos de bom gosto e adorava ser conhecida como a mocinha que passeia sempre pelo andar com os sapatinhos mais bonitinhos. Ele lhe confessou mais tarde que adorava falar dela justamente por poder encher as frases com diminutivos. Ele confessou mais tarde que adorava os diminutivos.

Enviar e-mails particulares era contra as regras. Mas ela continuou a conversa online e transpareceu todo o embaraço. Não sabia como lidar. O grande paradoxo em sua vida era que, por mais que adorasse ser elogiada pelas roupas, pelos sapatinhos e pelo corpinho completamente em forma, ela não gostava muito de aparecer. A vergonha lhe tomava de assalto ruborizando as maçazinhas do rosto num piscar de olhos. Mesmo assim deu continuidade à conversa, com rosto pegando fogo e tudo. Agradeceu o elogio e topou, algumas mensagens depois, um café ao final do dia.

O lugar estava cheio, mas um café e o calor humano seriam a dobradinha perfeita para aquele frio que abraçava com força todo mundo que se aventurava a andar na rua. Assumiu que não tomava café, mas que aceitaria um chocolate quente (daqueles com um gostinho de menta). Começou ouvindo bastante e descobriu que por trás daquela cara fechada havia um sarcasmo saudável e uma ternura natural, que lhe agradou em cheio. Começou a falar mais, confessando que não imaginava tal situação e que realmente nunca imaginou qualquer interesse por parte dele. Ele ainda rodeou um pouco e acabou confessando que até falava bastante dela e que gostava de tocar no assunto justamente porque podia encher as frases com diminutivos. Mais solto, ele confessou que gostava dos diminutivos e ela até acabou soltando uma piadinha em que, se tratando de uma pessoa pequenina como ela, e os diminutivos eram muitos. Eles riram até que com certo gosto e voltaram os olhares pro copo de chocolate quente e pra xícara com café forte e com muito pouco açúcar.

Ela disse que estava ficando tarde, assim como mandam as regras. Ele conhecia bem as regras e insistiu para ficarem um pouco mais. Mas insistiu pouco e de forma diplomática. A bebida quente e o calor humano do lugar cheio deixaram-na realmente bem confortável e ele se ofereceu para lhe dar uma carona, para que não passasse novamente para o estágio de frio intenso. Ela aceitou de bom grado. E por múltiplos motivos. Além da bebida e do calor humano, lhe esquentava a vergonha que lhe fervia a cara.

A carona foi boa. Tocava um álbum qualquer do Chet Baker no rádio. Ela não sabia quem era Chet Baker, mas achou a melodia bem gostosa. O beijo na porta de casa foi ainda melhor que a carona em si. Um beijo leve e sem insistência, afinal, a vergonha era a siamesa da noite.

Quando entrou em casa, fechou a porta. Acendeu a luz e olhou em volta. Inspirou fundo e ainda tentou lutar. Um gritinho tentou escapar, mas foi detido pelos lábios cerrados e ainda com o gosto daquele beijo. Inspirou ainda mais forte, olhando tudo em volta e um sorriso escancarou tanto a boca ainda sensível do beijo quanto o gritinho que saiu ainda trôpego. Apertou as chaves na mão e se entregou num grito delicioso. Deitou sorrindo e acordou sorrindo. Quando acordou, tinha ainda uma vontade boa de gritar.

11 Respostas

  1. Eeeta diliça.

  2. Mas que coisinha fofinha, hein

  3. Que confortante.

  4. marrébom.
    ;c)

  5. Ahhh que delicia!!!
    Senti o gostinho desse conto!

  6. .Ah, vim do PdH e parei aqui…Que bom!
    Uma delicia de crônica pra se ler e reler!
    Bom pra uma sexta-feira..

    • Sempre bom ler sobre as sensações boas de uma paquera, né! =P

  7. Olá. Tua crônica me incitou a escrever um conto… logo que li a frase do email, me peguei com a idéia “e se quem tivesse escrito fosse ‘Ela’, que sabia que aquele email era proibido?”. Essa crônica e esse conto já provocaram dois debates na minha casa.

    Quem sabe isso tb te provoque, já que me provocaste! ;)

    • Poxa, Lylian, assim que tu tiver o conto escrito, manda o link aqui pro Bossa! Ficarei honrado em lê-lo! =D

  8. jader, eu sou “café com leite” nos espaços virtuais. não tenho pagina, blog, links… estou me familiarizando só agora (antes tarde do que mais tarde). e adorando!
    me manda um email que eu te envio o conto. Té!

  9. Aaaahhhhnnnnnnn… ² =D

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