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	<title>Bossa Nostra</title>
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	<description>A bossa nostra: baseada nas histórias verdadeiras criadas em minha cabeça</description>
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		<title>O motivo (Crônicas do Grito Vol. IV)</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 02:18:45 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Talita é aeromoça. Nunca ligou pra essas manias do ‘politicamente correto’ e não liga de ser chamada assim. Aeromoça, comissária de bordo, assistente. O que importa pra ela é a sensação de liberdade, de “ser maior que a vida”. A Talita se sente única quando coloca o cinto de segurança contra suas ancas delineadas. Adora [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=133&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Talita é aeromoça. Nunca ligou pra essas manias do ‘politicamente correto’ e não liga de ser chamada assim. Aeromoça, comissária de bordo, assistente. O que importa pra ela é a sensação de liberdade, de “ser maior que a vida”. A Talita se sente única quando coloca o cinto de segurança contra suas ancas delineadas. Adora ouvir o sotaque forte sempre que algum gringo tenta falar seu nome. Já foi várias vezes para a Europa e Estados Unidos, “mas não deu ainda para fazer a rota do Kerouac”. Talita adora livros e tem como seus preferidos os de viagens. “É muito bom sentir a experiência de estar em muitos lugares. Me sinto várias mulheres ao mesmo tempo”. Talita conhece gente do mundo todo e não quer namorar tão cedo para não ficar entre a saudade e a vocação para viajar. Talita dificilmente é encontrada por aí sem um sorriso no rosto.</p>
<p style="text-align:justify;">Marcos é executivo. Trabalha para uma multinacional e adora reparar no corte dos ternos de todo mundo que passa por seus olhos durante o dia. Tem dezenas de gravatas vermelhas “que sempre sugerem liderança”. Marcos entrou na corporação sonhando em um dia ser CEO e sonha com todos os confortos que uma vida de trabalho árduo e arrojado pode oferecer. Chegou a pesquisar o preço de uma banheira que era ativada via celular, pra que ele pudesse sair do escritório e pudesse chegar em casa com sua jacuzzi de luxo pronta para massagear seu corpo e seu ego. Mas nunca compraria tal regalia sem antes adquirir o par de anéis que selarão seu compromisso com Flávia, sua atual namorada. Marcos pensa em dar tudo do bom e do melhor para sua futura noiva, começando pelas alianças que serão forjadas pelo designer que ela disse ser, de longe, o melhor no ramo. Ela não sabe que ele pretende fazer-lhe uma surpresa ainda esse ano.</p>
<p style="text-align:justify;">Rubens é cadeirante. Nasceu gozando de boa saúde, mas sofreu um acidente na entrada da fase adulta que o deixou sem movimento nas pernas. Já a boca, essa não sabe muito a hora de parar não. Bastante opinativo, não vê problema algum em ter que se virar numa cadeira de rodas, mesmo no Brasil. Sabe das dificuldades, mas luta sempre com sorriso na cara e uma frase boa na ponta da língua. Rubens tem talento pra ser ator. Sabe que nunca o será, por conta de sua limitação. Não que não possa atuar, mas sabe que obviamente só faria papel de cadeirantes. Transfere suas energias pro papel, em forma de peças de teatro. Sabe que não vai pagar todas as contas de casa com o teatro, mas se esforça pra fazer o que gosta. Vive repetindo a frase “se eu não fizer, quem é que vai fazer?” e adora dizer que “sempre que entro num teatro, sinto uma vivacidade única nessa coluna cansada”. Rubens é mulherengo e sempre desfila com verdadeiras beldades. Não quer saber de ‘enrosco’ até beirar os trinta anos. E que assim seja.</p>
<p style="text-align:justify;">Talita, Marcos e Rubens podem parecer pessoas bem distintas umas das outras, vivendo, cada um a seu jeito, com suas manias, imperfeições e devaneios. E são nos devaneios que essas vidas aparentemente distantes começam a se emparelhar e convergir. São vidas cheias de uma vontade única de grito de liberdade, cada uma com sua particularidade, mas é sim, um único objetivo: Ser feliz.</p>
<p style="text-align:justify;">Talita já deu um berro livre de qualquer barreira no Grand Canyon, em uma de suas folgas. Marcos já deu um grito de ousadia ao ser promovido. Rubens se permitiu gritar de satisfação enquanto certo público aplaudia de pé uma das apresentações de um de seus espetáculos. São três brasileiros. Três pessoas. Três crianças que brincam dentro de cada um desses três seres humanos que querem, assim como você, o contentamento em cada situação da vida. Eles gritam por seus anseios. Gritam por seus prazeres. Gritam porque sabem que não há nada melhor que gritar.  Então eles gritam.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/abossanostra.wordpress.com/133/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/abossanostra.wordpress.com/133/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/abossanostra.wordpress.com/133/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/abossanostra.wordpress.com/133/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/abossanostra.wordpress.com/133/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/abossanostra.wordpress.com/133/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/abossanostra.wordpress.com/133/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/abossanostra.wordpress.com/133/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/abossanostra.wordpress.com/133/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/abossanostra.wordpress.com/133/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/abossanostra.wordpress.com/133/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/abossanostra.wordpress.com/133/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/abossanostra.wordpress.com/133/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/abossanostra.wordpress.com/133/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=133&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Tudo Mudar (Crônicas do Grito Vol. III)</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Sep 2009 03:17:08 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas do grito]]></category>

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		<description><![CDATA[Ela sabia que aquele e-mail era proibido. Sabia também que ninguém nunca olharia aquela mensagem e que ninguém nunca vasculharia qualquer sistema atrás de alguma correspondência daquelas. Mas sabia que aquele e-mail era proibido. Só que o resto aconteceu de forma automática. “Você está linda hoje. Parecendo a Sininho&#8230;” Não sabia exatamente como se portar, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=131&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Ela sabia que aquele e-mail era proibido. Sabia também que ninguém nunca olharia aquela mensagem e que ninguém nunca vasculharia qualquer sistema atrás de alguma correspondência daquelas. Mas sabia que aquele e-mail era proibido. Só que o resto aconteceu de forma automática.</p>
<p style="text-align:justify;">“Você está linda hoje. Parecendo a Sininho&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">Não sabia exatamente como se portar, pois nunca havia ganhado galanteio algum no trabalho. Usava um vestido de verde escuro com uma faixa dourada delicada, mas decidida, que acentuava sua cintura moldada e graciosa. Tinha um corpinho muito bem medido e sustentado por um par de panturrilhas pequenas e fortes, desenhadinhas que dava até gosto. O sapatinho creme número 34 era o detalhe. Sempre usava sapatinhos que davam o detalhe do vestuário. Adorava e colecionava sapatos de bom gosto e adorava ser conhecida como a mocinha que passeia sempre pelo andar com os sapatinhos mais bonitinhos. Ele lhe confessou mais tarde que adorava falar dela justamente por poder encher as frases com diminutivos. Ele confessou mais tarde que adorava os diminutivos.</p>
<p style="text-align:justify;">Enviar e-mails particulares era contra as regras. Mas ela continuou a conversa online e transpareceu todo o embaraço. Não sabia como lidar. O grande paradoxo em sua vida era que, por mais que adorasse ser elogiada pelas roupas, pelos sapatinhos e pelo corpinho completamente em forma, ela não gostava muito de aparecer. A vergonha lhe tomava de assalto ruborizando as maçazinhas do rosto num piscar de olhos. Mesmo assim deu continuidade à conversa, com rosto pegando fogo e tudo. Agradeceu o elogio e topou, algumas mensagens depois, um café ao final do dia.</p>
<p style="text-align:justify;">O lugar estava cheio, mas um café e o calor humano seriam a dobradinha perfeita para aquele frio que abraçava com força todo mundo que se aventurava a andar na rua. Assumiu que não tomava café, mas que aceitaria um chocolate quente (daqueles com um gostinho de menta). Começou ouvindo bastante e descobriu que por trás daquela cara fechada havia um sarcasmo saudável e uma ternura natural, que lhe agradou em cheio. Começou a falar mais, confessando que não imaginava tal situação e que realmente nunca imaginou qualquer interesse por parte dele. Ele ainda rodeou um pouco e acabou confessando que até falava bastante dela e que gostava de tocar no assunto justamente porque podia encher as frases com diminutivos. Mais solto, ele confessou que gostava dos diminutivos e ela até acabou soltando uma piadinha em que, se tratando de uma pessoa pequenina como ela, e os diminutivos eram muitos. Eles riram até que com certo gosto e voltaram os olhares pro copo de chocolate quente e pra xícara com café forte e com muito pouco açúcar.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela disse que estava ficando tarde, assim como mandam as regras. Ele conhecia bem as regras e insistiu para ficarem um pouco mais. Mas insistiu pouco e de forma diplomática. A bebida quente e o calor humano do lugar cheio deixaram-na realmente bem confortável e ele se ofereceu para lhe dar uma carona, para que não passasse novamente para o estágio de frio intenso. Ela aceitou de bom grado. E por múltiplos motivos. Além da bebida e do calor humano, lhe esquentava a vergonha que lhe fervia a cara.</p>
<p style="text-align:justify;">A carona foi boa. Tocava um álbum qualquer do Chet Baker no rádio. Ela não sabia quem era Chet Baker, mas achou a melodia bem gostosa. O beijo na porta de casa foi ainda melhor que a carona em si. Um beijo leve e sem insistência, afinal, a vergonha era a siamesa da noite.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando entrou em casa, fechou a porta. Acendeu a luz e olhou em volta. Inspirou fundo e ainda tentou lutar. Um gritinho tentou escapar, mas foi detido pelos lábios cerrados e ainda com o gosto daquele beijo. Inspirou ainda mais forte, olhando tudo em volta e um sorriso escancarou tanto a boca ainda sensível do beijo quanto o gritinho que saiu ainda trôpego. Apertou as chaves na mão e se entregou num grito delicioso. Deitou sorrindo e acordou sorrindo. Quando acordou, tinha ainda uma vontade boa de gritar.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/abossanostra.wordpress.com/131/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/abossanostra.wordpress.com/131/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/abossanostra.wordpress.com/131/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/abossanostra.wordpress.com/131/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/abossanostra.wordpress.com/131/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/abossanostra.wordpress.com/131/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/abossanostra.wordpress.com/131/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/abossanostra.wordpress.com/131/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/abossanostra.wordpress.com/131/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/abossanostra.wordpress.com/131/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/abossanostra.wordpress.com/131/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/abossanostra.wordpress.com/131/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/abossanostra.wordpress.com/131/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/abossanostra.wordpress.com/131/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=131&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Malandro que é Malandro não se apresenta (Crônicas do Grito Vol. II)</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Sep 2009 03:06:49 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas do grito]]></category>
		<category><![CDATA[Malandro]]></category>

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		<description><![CDATA[Duas coisas ainda me são bem fortes na cabeça: Uma delas era a candeia, que iluminava oscilante e manchava tudo com seu tom dourado. Era um amarelo forte tomando conta das mesas e enobrecendo o samba tocado pelos bambas das redondezas. Miudezas que realmente importam. A outra coisa era a movimentação singela e poética da [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=126&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Duas coisas ainda me são bem fortes na cabeça: Uma delas era a candeia, que iluminava oscilante e manchava tudo com seu tom dourado. Era um amarelo forte tomando conta das mesas e enobrecendo o samba tocado pelos bambas das redondezas. Miudezas que realmente importam.</p>
<p style="text-align:justify;">A outra coisa era a movimentação singela e poética da fumaça. O frio não atrapalhava a alegria, mas deixava a fumaça mais densa e assim, a danada passeava com pompas pelo ar gelado. As pessoas iam e vinham deformando as massas esbranquiçadas que bailavam elegantemente, ignorando tais transeuntes.</p>
<p style="text-align:justify;">E essa era a mistura de cores que mais se via correr naquela festa. A cerveja, dourada e protegida por uma fina capa branca de espuma passeava livremente, sedutora e cheia do dom de acalentar os corações mais ansiosos. É, o amor de manifesta das mais diversas formas e, naquelas mesas, tinha amor pra se dar e amor pra se vender. Amor pela gelada que deveria sempre completar a metade vazia do copo, o amor pela mulata de vestido bordado de flor ou por todas as mulatas que no mundo de havia, amor pela música feita pelos que ainda haveriam de ser a velha guarda e amor pelo estilo de vida, pela maneira de se levá-la devagarzinho como se mandava a cartilha do malandro.</p>
<p style="text-align:justify;">Mentira. Não havia cartilha. Não havia regras e, se olhasse bem, não havia nem malandro porque “malandro, que é malandro, não se apresenta”. Mas que o reduto era dos madraços, ah, isso era. E que mal havia nisso? Todo mundo ali, aproveitando uma noite com a cabeça tranquila, sabendo de cor e salteado que a vida bate, e bate sim, mas que ela também assopra e assim se leva.</p>
<p style="text-align:justify;">A cachaça e o ânimo já esquentavam a mesa quando se trocaram as duplas e começaram mais uma rodada de truco. O jogo que tinha apelido por ai de “jogo de ladrão”, numa época em que o violão era também coisa de vagabundo. E claro que tudo isso fazia risada na rodinha da mesa porque, diziam eles, “é até bom que se vê como jogo de gatuno, viu, assim só vem jogar quem tem colhão memo. Eu é que não preciso duma mocinha pra parceiro, né não”. No truco é onde o malandro exercita seu dom. é onde ele deposita toda a prática do estudo do cotidiano. “No truco não tem blefe, tem malandragem, rapá”.</p>
<p style="text-align:justify;">O dourado ganha intensidades bem interessantes quando cai em cheio no rosto infalível do “pé”, aquele que dá as cartas e confere destemido sua obra. Carta vai e carta vem, e os olhos conferem com todos os escudos as táticas acertadas e os movimentos calculados erroneamente. A fumaça também passa despercebida pelas narinas aguçadas atrás da hesitação, da manilha escondida. É momento descontraído, mas de atenção máxima as nuances mais sutis. Mas é truco, e no truco, nada é feito seriamente. “se fecha a fuça, amigo, aí tem”. Então o truco é jogado na atenção e na malemolência.</p>
<p style="text-align:justify;">E do gingado que surge a gritaria. Todo malandro sabe as regras e todo malandro sabe como quebrá-las.</p>
<p style="text-align:justify;">- Truco!<br />
- Cai dentro, marreco!</p>
<p style="text-align:justify;">E os sons se misturam numa discussão infinita e com ares de ser algo pesado, mas tudo faz parte do ritual de se coletar mais e mais tentos. Em meio aos argumentos, surgem risadas incríveis provando a tranqüilidade daquela balburdia. Mais uma rodada emocionante. “Como que foi a rodada, meu chapa? E acha mesmo que isso importa? Ganhar no truco é ganhar no grito, mermão! Aprende a gritar que o tento vem!”</p>
<p style="text-align:justify;">E com essa resposta, mais uma vez a malandragem se vestiu de dourado e saiu por aí, dona de si e de tudo mais que importa.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/abossanostra.wordpress.com/126/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/abossanostra.wordpress.com/126/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/abossanostra.wordpress.com/126/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/abossanostra.wordpress.com/126/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/abossanostra.wordpress.com/126/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/abossanostra.wordpress.com/126/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/abossanostra.wordpress.com/126/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/abossanostra.wordpress.com/126/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/abossanostra.wordpress.com/126/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/abossanostra.wordpress.com/126/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/abossanostra.wordpress.com/126/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/abossanostra.wordpress.com/126/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/abossanostra.wordpress.com/126/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/abossanostra.wordpress.com/126/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=126&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>London Calling (Crônicas do Grito Vol. I)</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Sep 2009 02:40:14 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Aqui nas terras Calientes Brasilis, peca-se pelo excesso. O povo peca comendo e peca desperdiçando. Peca nas roupas (pra mais e pra menos, muito menos), peca nas informações (turista sofre com as repetições de onde dobrar à direita) e até na corrupção a gente peca e deixa se fazer aquele alarde todo. O brasileiro peca. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=121&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Aqui nas terras Calientes Brasilis, peca-se pelo excesso. O povo peca comendo e peca desperdiçando. Peca nas roupas (pra mais e pra menos, muito menos), peca nas informações (turista sofre com as repetições de onde dobrar à direita) e até na corrupção a gente peca e deixa se fazer aquele alarde todo. O brasileiro peca. O brasileiro exagera. Mas enquanto somos (nós, os calientes-brasilis) estigmatizados como excessivos, o inglês cumpre o papel oposto.</p>
<p style="text-align:justify;">Os britânicos são sintéticos e acabam se mostrando gélidos e mal-humorados. Eles pecam sim (eles, os gélidis britaniquis, como gostaria de enfatizar nosso saudoso Mussum, um caliente-brasilis de primeira), mas não podem ser punidos antes mesmo de uma defesa.</p>
<p style="text-align:justify;">O londrino fala pouco, tem (na sua maioria) aquele sotaque almofadinha e possue regras curtas e diretas. No Underground (o metrô deles), por exemplo, experimenta só subir parado na escada-rolante pelo lado esquerdo. É peteleco na certa. Isso porque todo inglês sabe muito bem que, quem não está com pressa ou não aguenta o tranco, deve ficar do lado direito da escada, deixando a porção esquerda para os apressadinhos e mais atléticos. Os ingleses também sabem que, se encontrar um sujeito “caçando sapos” parado do lado esquerdo, é gringo (não o nosso gringo. O gringo deles, ou seja, a gente). Mas nem pelo infortúnio de nascer em outro lugar que não na ilha, esse tal merece uma colher de chá-das-cinco. É peteleco na orelha, cutucão nervoso e advertência seca e direta: “Stand on your right” (mantenha-se à sua direita, ou como eu gosto de supor, fica pra tua direita, ô mané). É um sistema de regras secas e diretas, mas que, diabos, funcionam bem pra cacete.</p>
<p style="text-align:justify;">Não que a nossa confusão de filas e indicações exacerbadas não funcione, mas só são feitas de formas diferentes para diferentes pessoas (os brasilis e os britaniquis). Diferentes meios para um mesmo fim. Só que enquanto o inglês se orienta atentamente com as informações disponíveis ao redor, a gente faz aquele fuzuê ao pé da placa, querendo saber de cinco pessoas diferentes qual o nome da bendita rua. O inglês não gosta muito de perguntas, muito menos de respondê-las. Contudo, de um jeito ou de outro, o troço todo tem de dar certo.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu caminhava matutando a vida na Brick Lane, centro nervoso do East Side (lugar com vários restaurantes e casas noturnas). Estava por lá fazia um par de dias e vagueava justamente por fatos que me diferenciava dos ingleses e suas caras sisudas. Vi, enquanto perambulava, que deveria ser daí o cinza que faz a Londres ser tão cinza, mesmo com o verde forte e o vermelho intenso das cortinas dos estabelecimentos que eu passava em frente. O sorriso dos ingleses era tão marrom e preto como os tijolos que dão identidade tão característica aos prédios aglutinados daquela região. Ficava também fantasiando por ali algumas memórias falsas do tempo macabro em que a região era parque de diversões do Jack (o Estripador). Conseguia sentir o ar em estado de torpor que inundava aquelas noites doentias. E com toda essa meditação em movimento, quase que eu próprio faço daquela tarde, uma tarde fúnebre.</p>
<p style="text-align:justify;">Andava a fitar uns telhados na esquina do Preem Restaurant quando meus pensamentos correram assustados com umas demonstrações de força gutural. Um cara de camiseta listrada e cabelo estranho vinha em minha direção com dois olhos embutidos em injúria e com a boca vomitando três letras repetidamente: “Hey&#8230;hey&#8230;hey”. Seu dedo em riste me fez olhar pra beira do asfalto e decifrar tudo no turbilhão que me fazia a mente em imagens, cores, palavras, signos, significados, sentidos. A beira do asfalto me avisava para olhar pro outro lado ao atravessar. A beira do asfalto estava gemendo Look Right (olhe para a direita, já que os ingleses dirigem na mão contrária) enquanto alguns carros passavam em velocidade irrepreensível a alguns palmos do meu passo. Percebi os gritos impacientes do mancebo de calças apertadas e brinco no nariz que me foi seco e direto: “You. Look right”. E com a mesma injúria nos olhos, ele se foi.</p>
<p style="text-align:justify;">E eu ali, com os gritos ecoando na cabeça enquanto carros ingleses passavam na mão contrária nossa (e certa pra eles). Comunicação me foi, mesmo que no grito, pra inglês ver e pra caliente-brasilis ouvir.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/abossanostra.wordpress.com/121/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/abossanostra.wordpress.com/121/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/abossanostra.wordpress.com/121/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/abossanostra.wordpress.com/121/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/abossanostra.wordpress.com/121/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/abossanostra.wordpress.com/121/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/abossanostra.wordpress.com/121/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/abossanostra.wordpress.com/121/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/abossanostra.wordpress.com/121/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/abossanostra.wordpress.com/121/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/abossanostra.wordpress.com/121/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/abossanostra.wordpress.com/121/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/abossanostra.wordpress.com/121/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/abossanostra.wordpress.com/121/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=121&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Contos para a noite escura (vol. 102)</title>
		<link>http://abossanostra.wordpress.com/2009/05/13/contos-para-a-noite-escura-vol-102/</link>
		<comments>http://abossanostra.wordpress.com/2009/05/13/contos-para-a-noite-escura-vol-102/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 13 May 2009 02:46:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaderpires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Perspectivas lhe fugiam desgarradamente pelos campos imensuráveis da idéia. Na verdade quem se encontrava preso era ele próprio, acorrentado num estilo de vida desencantado. Sentado despretensiosamente na cadeira velha e barulhenta que muitas vezes tirava sua atenção das tarefas realmente dignas de foco.   Claro que seu pensamento era outro. Considerava todos aqueles rabiscos uma [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=118&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Perspectivas lhe fugiam desgarradamente pelos campos imensuráveis da idéia. Na verdade quem se encontrava preso era ele próprio, acorrentado num estilo de vida desencantado. Sentado despretensiosamente na cadeira velha e barulhenta que muitas vezes tirava sua atenção das tarefas realmente dignas de foco.</p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
<p style="text-align:justify;">Claro que seu pensamento era outro. Considerava todos aqueles rabiscos uma verdadeira perda de tempo, mas realizava que a vida era tão somente um infinito extravio do tempo útil. Considerava naqueles tempos inferiores que a dádiva da existência era, na verdade, um fardo espinhoso com a capacidade única de se sobrecarregar com ranços e lástimas. Nenhuma perspectiva lhe era palpável. Ficava personificando-as como ovelhas berrando ironicamente enquanto desapareciam no descampado frio que inventara.</p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
<p style="text-align:justify;">Imaginava as palavras rabiscadas se entrelaçando, perdendo as formas e tornando-se grandes montes de lama azul, escorrendo pelo papel e respingando em suas roupas. Martelava o dedo na poça imaginária sobre o caderno e fingia sentir gotas quentes salpicando seu rosto inanimado e iluminado por uma luz amarela do abajur sem proteção, que o fazia suar por conta do calor da lâmpada apontada para a sua cara.</p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
<p style="text-align:justify;">Levantou-se de hora pra outra, esquecendo as alucinações propositais e abriu a janela pra tentar se refrescar. Ficou admirado com a neblina que sitiava o apartamento, soltando um hálito frio pra dentro do quarto e devorando com aquela língua lisa a iluminação dos postes, os carros estacionados e já mastigava tudo que estava além das esquinas da avenida que morava. Percebeu a temperatura baixa e se agasalhou com uma jaqueta rasgada. Continuou olhando a neblina. Não via nada, mas continuou olhando. A neblina fazia bem. A neblina engolia sua melancolia. Ruminava calmamente e cuspia de volta em sua cara uma dor maior e menos identificável. Já secara o suor e a lágrima invisível. Rapidamente, também lhe secara a dor.</p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
<p style="text-align:justify;">Achava-se grandinho demais para cultivar sonhos brandos e tinha fixo em mente que, mesmo sendo tudo aquilo uma grande falsidade que não o levaria a lugar algum, era de uma beleza engolfada em ludíbrio. A falsidade o fazia bem. Ou melhor, lhe fazia bem saber que a falsidade lhe fazia bem. Achava reconfortante saber que a falsidade lhe era, das sensações, a mais sincera. Voltou s sentar e a se distrair com o balido das perspectivas.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/abossanostra.wordpress.com/118/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/abossanostra.wordpress.com/118/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/abossanostra.wordpress.com/118/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/abossanostra.wordpress.com/118/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/abossanostra.wordpress.com/118/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/abossanostra.wordpress.com/118/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/abossanostra.wordpress.com/118/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/abossanostra.wordpress.com/118/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/abossanostra.wordpress.com/118/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/abossanostra.wordpress.com/118/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/abossanostra.wordpress.com/118/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/abossanostra.wordpress.com/118/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/abossanostra.wordpress.com/118/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/abossanostra.wordpress.com/118/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=118&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>É o vento no ar&#8230;</title>
		<link>http://abossanostra.wordpress.com/2009/04/07/e-o-vento-no-ar/</link>
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		<pubDate>Tue, 07 Apr 2009 03:14:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaderpires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Há dias que estou com o peito pequeno e os olhos pesados. O ar não me entra direito e, do pouco que entra, menos ainda é o que sai. Fico imaginando que esse ar viciado sobe pras minhas têmporas encurralando os globos oculares e forçando as pálpebras a fecharem.   É&#8230;tenho tempo de sobra pra [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=117&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Há dias que estou com o peito pequeno e os olhos pesados. O ar não me entra direito e, do pouco que entra, menos ainda é o que sai. Fico imaginando que esse ar viciado sobe pras minhas têmporas encurralando os globos oculares e forçando as pálpebras a fecharem.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">É&#8230;tenho tempo de sobra pra pensar em besteiras como essa.<span>  </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Já nem acendo as luzes quando chego em casa. Jogo a mochila em qualquer lugar e me sento na cadeira da escrivaninha enquanto desfaço as dobras da camisa após meses de reclamações da empregada, que tem um trabalhão danado em desfazê-las para lavar. Arranco a camisa e também a atiro junto ao monte de outras roupas sujas que sumirão dali num passe de mágica quando a Arlete, a dona das reclamações, vem pra resgatar o pouco de vida que ainda há nesse apartamento.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Chego sempre cansado. Muito cansado. Mal tiro a camisa e já me curvo sobre a escrivaninha arranhada e sem cor, mas de grande apreço. Apoio os braços, segurando as têmporas com as mãos. Os olhos pesam, me esqueço de tirar os sapatos e a luz da rua entra tão tímida pela janela da varanda que tudo que vejo são um pouco mais que silhuetas. Se bem que é bem mais que suficiente, já que a TV não me interessa, o rádio me entedia, a comida não me desce e os livros me humilham.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Vou ate a varanda pra poder fumar (a Arlete também reclama do sarro de cigarro que fica na casa). Sento no chão mesmo, no exato canto oposto ao vaso de uma planta qualquer que nunca fiz questão de saber o nome. Faço desse jeitinho porque a Arlete odeia que mexam na plantinha que ela cuida com tanto esmero. Acendo o cigarro que imediatamente potencializa a moleza e o cansaço. Automaticamente meu peito se encolhe ainda mais e o calor ri a gosto de me ver mexer pouco mais que os olhos. Claro que eu não ligo pra esse deboche. Não estou olhando nem fazendo nada mesmo. Só deixo os ouvidos que me levem pelas buzinas e sirenes, por sobre os garotos embriagados que descem a rua do meu apartamento cambaleando, falando alto e quebrando garrafas vazias na calçada. Tomo cuidado com as cinzas porque a Arlete vive dizendo que eu as deixo cair na varanda e esqueço a janela aberta e a sala amanhece toda cheia de birras e sujeira pisada.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">E aconteceu de novo. Aquele lance, de perder a noção&#8230;</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">&#8230;lapso. Aconteceu de novo. Toda vez que me deixo levar (pelos sons ou cores ou ventos), acho que fiquei viajando por uns cinco minutos. Mas levantei inquieto e vi que se passara mais de uma hora. Sempre acho isso estranho e perco ainda mais tempo imaginando como seria ruim se isso acontecesse no metrô. Termino sempre esperando que isso não aconteça e a Arlete sempre diz que um dia ou outro é isso que vai acabar acontecendo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Solto a primeira palavra desde que entrei em casa hoje: “Merda”.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">De ficar ali na varanda, perdi tempo precioso que tinha pra dormir. Porque meu sono é potente, mas bem volátil e, agora que ele se foi, provavelmente não voltará. E completando a festa: Amanhã é dia de a Arlete limpar o apartamento.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Fico parado, em pé, apenas respirando fundo e irritado com o fato de que, agora que eu queria que os putos dos meus olhos desistissem e caíssem de vez, sinto-os digladiando bravamente contra aquele monte de ar cinza da porcaria das têmporas.<span>  </span>Sinto a fumaça retomando lugar em meu peito pequenininho que se encolhe ainda mais. Os olhos não. Se encontram esbugalhados orgulhosos. Em suma, estou mais cansado e mais acordado.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Já tentei com remédios uma vez, mas não deu certo. Por isso que a Arlete, a mulher que limpa aqui a minha casa, fica sempre enchendo meu ouvidos. Se os remédios tivessem dado certo, eu não ouviria uma chamada de atenção sequer, nem dela nem de ninguém.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Dessa vez vou fazer tudo do jeito certo. Li em algum lugar (ou vi em algum filme doido que passa de madrugada) que o cano tem que estar dentro da boca pra dar certo. Se a gente coloca o cano embaixo do queixo ou nas&#8230;têmporas&#8230;pode ser que dê errado e, claro que é a última coisa que eu quero que aconteça.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Então vai ser dentro da boca (o ruim é o gosto do aço gelado).</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Ah, a pena é que amanhã cedo eu não vou estar aqui pra ver a cara da Arlete quando vir isso tudo.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/abossanostra.wordpress.com/117/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/abossanostra.wordpress.com/117/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/abossanostra.wordpress.com/117/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/abossanostra.wordpress.com/117/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/abossanostra.wordpress.com/117/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/abossanostra.wordpress.com/117/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/abossanostra.wordpress.com/117/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/abossanostra.wordpress.com/117/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/abossanostra.wordpress.com/117/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/abossanostra.wordpress.com/117/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/abossanostra.wordpress.com/117/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/abossanostra.wordpress.com/117/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/abossanostra.wordpress.com/117/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/abossanostra.wordpress.com/117/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=117&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>E eu achava que aqui batia um coração&#8230;</title>
		<link>http://abossanostra.wordpress.com/2008/12/09/e-eu-achava-que-aqui-batia-um-coracao/</link>
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		<pubDate>Tue, 09 Dec 2008 00:46:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaderpires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[  Tudo parecia tão certo, tão correto. Estávamos os dois ali, na plenitude de alguma solidão, exercitando a prática de inventar e perpetuar assuntos pra justamente perpetuar esse estado a quatro: eu e ela, ela e eu. Por falar em ela e eu, ela é tão mais quieta que eu&#8230; Suas palavras deslizam sobre uma [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=111&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Tudo parecia tão certo, tão correto. Estávamos os dois ali, na plenitude de alguma solidão, exercitando a prática de inventar e perpetuar assuntos pra justamente perpetuar esse estado a quatro: eu e ela, ela e eu.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Por falar em ela e eu, ela é tão mais quieta que eu&#8230;</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Suas palavras deslizam sobre uma serenidade de dar inveja. As frases vão sendo executadas com primor e afeto, alisando o ar com graça. Em contrapartida, eu despejava pensamentos impetuosos, numa tentativa saudável de demonstrar o recente apego e a uma inocente virtuose. Essa vitalidade se dava também como medida de combate diante da austeridade natural de quem acabou de me conhecer. Jogava com força pra quebrar de início as barreiras espontâneas de uma menina interessante.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Mal sabia ela que o que mais me atraiu fora a sua amabilidade e não os delicados traços de sua feição. Não que ela precisasse necessariamente saber disso, ou melhor, não que ela precisasse saber disso de modo direto de minha parte, por alguma afirmação que pudesse se fazer confundir sinceridade com hostilidade. Bastava só algum detalhe a mais, ou em meus atos ou na atenção dela. Alguma minúcia que indicasse: “ok, não é só mais uma pegação”. Eu nunca seria hipócrita de negar o incontestável, mas ela se mantinha tranquila e eu não poderia simplesmente ignorar aquele intelecto que se mostrava deveras prodigioso.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">O imediatismo em seu discurso foi tomado de uma liberalidade gratificante e ganhei em troca uma maior desenvoltura também por parte dela, com uma conversa mais apetecível, cheia daquelas miudezas tão aprazíveis.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Uma delicadeza a mais, um sorriso a mais, um elogio a mais, até que a soltura despercebida culminou em um elogio considerado&#8230;demais.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">“O resumo disso é mais que meu rosto” – arremessou sem dó a mocinha que se retraia sem perceber.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Essa verdade veio como um direto no estômago, chegando a me tomar o ar. Palavras medrosas escorregavam goela abaixo e, na cabeça, apenas pensamentos monossilábicos: “Mas&#8230; mas&#8230; é&#8230; mas é&#8230;”. Claro que, na minha idade, essas sensações ambientam por fração de segundo pois, a continuidade já é conhecida como o melhor contra-ataque.<span>  </span>Apanhei-a com explicações igualmente sinceras para deixar atestada minha curiosidade de saber mais daquela garota que ia se mostrando mais atraente.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Só me intrigou o fato de minhas próprias atitudes terem se voltado contra mim de modo tão torto. Pensei estar mostrando todas as curiosidades por todas as facetas para todos os momentos. Cri em um plano leviano e acabei levando o rebote instintivo. Nada verdadeiramente fora da normalidade, mas, eu juro que achava que aqui batia um coração&#8230;</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/abossanostra.wordpress.com/111/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/abossanostra.wordpress.com/111/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/abossanostra.wordpress.com/111/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/abossanostra.wordpress.com/111/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/abossanostra.wordpress.com/111/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/abossanostra.wordpress.com/111/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/abossanostra.wordpress.com/111/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/abossanostra.wordpress.com/111/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/abossanostra.wordpress.com/111/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/abossanostra.wordpress.com/111/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/abossanostra.wordpress.com/111/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/abossanostra.wordpress.com/111/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/abossanostra.wordpress.com/111/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/abossanostra.wordpress.com/111/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=111&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>E eu era eu (ou Conto Fantiano nºII)</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Nov 2008 23:39:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaderpires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Estava no exílio tempo suficiente pra saber que ali não era o seu lugar. O frio era de foder e todas as extremidades do corpo sofriam com isso. Doíam-lhe os dedos, nariz e orelhas eram inexistentes no conjunto da face, e achava muito engraçado o fato da cerveja nunca ser realmente gelada como em sua [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=108&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span>Estava no exílio tempo suficiente pra saber que ali não era o seu lugar. O frio era de foder e todas as extremidades do corpo sofriam com isso. Doíam-lhe os dedos, nariz e orelhas eram inexistentes no conjunto da face, e achava muito engraçado o fato da cerveja nunca ser realmente gelada como em sua terra.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span>Bebia mais que o normal. Vezes pra esquecer algo que já nem se lembrava, mas sabia que não queria lembrar, vezes por tragos que eram oferecidos todo o tempo por pessoas com sotaques diferentes de um espanhol, hora rápido, hora escorregadio por parte dos estrangeiros. Bebia pra celebrar as novas amizades que nunca tornaria a ver, mas que naquele momento faziam o maior sentido.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span>Prometia no auge de sua embriagues inocente que levaria todos ao seu país, onde o sol não brilhava de forma covarde e as mulheres eram sensacionais. Fazia juras de levar as garotas mais sonhadoras para bailarem ao som de uma outra melodia, mas não aquela exportada pelo rádio, cheia de estereótipos e falsa liberdade. Queria mesmo voltar, mas não sabia como.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span>Doía-lhe saber que aquele era seu segundo exílio, já que o primeiro viveu desde o momento em que nasceu naquele lugar que era como uma ilha no coração da América Latina. Saiu de um exílio para entrar em outro e isso o transtornava. Tudo era diferente e todos sabiam tudo de todos os lugares, menos do lugar de onde ele viera, e ele achava que sabia o que todos sabiam, mas não sabia nada. Bebia pra esquecer o que não sabia.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span>Tinha uma visão pungente de tudo e todos e tecia comentários dos mais cáusticos enquanto iluminava o local com aquele sorriso de louco que encantava e assustava ao mesmo tempo. Tentava se defender de um inimigo invisível, atacando qualquer companhia de modo sutil, ao mesmo tempo em que se agarrava até os cabelos naqueles instantes de conversas efêmeras, porém iluminadas.<span>  </span>Vivia no limite tênue entre a doçura e a acidez que sempre lhe fora parte ativa e condizente. Não sabia mais de onde era e não via mais qualquer razão de tentar pertencer a algum lugar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span>Mergulhou-se em pensamentos no meio de uma conversa. Estava exausto de ficar pensando em línguas diferentes e permaneceu ali, sentado e absorto em idéias sujas. Não encontrava mais soluções triviais para esses devaneios cinzas que pairavam na linha de sua testa. Os olhos capturavam movimentos alheios, mas os ouvidos já não captavam sons. O cérebro não associava mais a relação tempo/espaço e tomou a decisão que julgava ser a mais prudente para solucionar aquele problema. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span>Pediu licença, foi até seu quarto, apagou a luz e dormiu.</span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/abossanostra.wordpress.com/108/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/abossanostra.wordpress.com/108/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/abossanostra.wordpress.com/108/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/abossanostra.wordpress.com/108/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/abossanostra.wordpress.com/108/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/abossanostra.wordpress.com/108/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/abossanostra.wordpress.com/108/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/abossanostra.wordpress.com/108/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/abossanostra.wordpress.com/108/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/abossanostra.wordpress.com/108/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/abossanostra.wordpress.com/108/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/abossanostra.wordpress.com/108/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/abossanostra.wordpress.com/108/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/abossanostra.wordpress.com/108/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=108&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Ela era ela (ou Conto Fantiano nº I).</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Sep 2008 00:09:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaderpires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Cada vez que ela mexia o cabelo, era como se eu morresse um pouco. Jogava as mexas extremamente lisas para trás com seus dedos finos de unhas sem esmalte. Era simples no jeito de ser, porém, tomada de uma segurança perturbadora. Costumava sentar-se na penúltima mesa das oito dispostas no local. Concentrava-se em um calhamaço [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=37&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-family:Georgia;">Cada vez que ela mexia o cabelo, era como se eu morresse um pouco. Jogava as mexas extremamente lisas para trás com seus dedos finos de unhas sem esmalte. Era simples no jeito de ser, porém, tomada de uma segurança perturbadora. Costumava sentar-se na penúltima mesa das oito dispostas no local. Concentrava-se em um calhamaço de folhas enquanto atirava cigarros num cinzeiro já atolado de bitucas de diversas marcas e tamanhos. Não necessitava de afirmações ou falsos carinhos. Arrumava a franja que teimava em lhe cobrir os olhos, o nariz pequeno e o maxilar delicadamente arredondado enquanto comia algumas uvas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-family:Georgia;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-family:Georgia;">Perdia várias conversas que na verdade nem me interessavam, para encará-la e decorar detalhes de seus movimentos. Suas bufadas ao ler o calhamaço de folhas da mesa, os cabelos teimosos escapando detrás da orelha para brincar na frente das letras, seu sorriso que fazia a língua se aventurar envergonhada pra fora da boca forçando uma discreta fechada maligna dos olhinhos negros. Ficava ali sentado meio a completos desconhecidos, bebendo de graça e aguardando o sinal de me retirar para que a verdadeira noite começasse.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-family:Georgia;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-family:Georgia;">Tinha costas esguias e sensualmente divididas por um vinco que descia até a base, onde duas cavidades delimitavam o começo de nádegas arredondadas e espantosamente belas para mulheres conhecidas por nascerem numa região onde não se tem bunda. Sempre levava uvas verdes para saborear entre um afago e outro, e para jogar na minha cara que as uvas de sua terra eram incomparavelmente melhores que as daqui. Levantava e ia se olhar no espelho, degustando suas uvas e arrumando a lingerie. O mais incrível é que não era vaidosa e tampouco egoísta. Era apenas tomada pelo momento, cuspindo com seus gestos sexualidades que a vida didática lhe privava. Naquelas horas, fechada naquele meu quarto alugado, sentia se bem andando de roupa de baixo e nada mais, explodindo em êxtase de um lado para o outro, mirando meus poucos gestos cansados e jogando risadas à toa pelo cômodo pouco iluminado. Assim como sua outra vida lhe obrigava de certa maneira, acabou por adquirir o hábito de falar em demasia. Não que isso fosse ruim, pois me agradava bastante ouvi-la falar por horas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-family:Georgia;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-family:Georgia;">Contava histórias e explicava pensamentos enquanto eu, calado, canalizava a atenção em cada movimento, cada gesto seu. Eu não precisava de mais. Estava sempre nua ou seminua, desejando minha atenção e, de certo modo, minha opinião. Era o suficiente para eu não querer sair nunca mais daquele quarto. Às vezes ela colocava seu jeans velho e uma de minhas camisetas surradas e ia me buscar cigarros ou cerveja gelada. Voltava em minutos com uma sacola cheia de outras guloseimas e tinha sempre algum acontecimento no caminho que tinha de contar. Já abria a porta quase no meio de alguma narrativa fantástica e gargalhava sem pudores enquanto abria outra cerveja.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-family:Georgia;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-family:Georgia;">Eu via nela uma urgência de viver aqueles momentos com uma sinceridade tão plena, daquelas impossíveis de se aplicar num dia-a-dia em sociedade sem ser confundida com hostilidade, desespero ou deboche. Ela queria viver duas vidas. Uma por prazer, naquelas horas de conforto e liberdade em que brincava quase sem roupas depois de me deixar estirado na cama; e outra por falta de coragem, no resto do tempo em que exercitava a arte obrigatória de dissimular. Eu vivia dizendo que hora ou outra ela se cansaria de uma dessas duas facetas e, por fim, ela acabou provando que eu estava certo. Pagou três meses adiantados do meu aluguel e sumiu sem deixar sorriso ou sobrenome.</span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/abossanostra.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/abossanostra.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/abossanostra.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/abossanostra.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/abossanostra.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/abossanostra.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/abossanostra.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/abossanostra.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/abossanostra.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/abossanostra.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/abossanostra.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/abossanostra.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/abossanostra.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/abossanostra.wordpress.com/37/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=37&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Tô chegando, amor</title>
		<link>http://abossanostra.wordpress.com/2008/09/02/to-chegando-amor/</link>
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		<pubDate>Tue, 02 Sep 2008 02:39:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaderpires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Dorival sempre se sentiu desconfortável no escuro. Só dormia sossegado se sentisse em alguma parte de seu corpo alguma parte qualquer do corpo de sua mulher. O contato, por mais distante e superficial que pudesse parecer, era primordial para uma boa noite de sono nos calores da Bahia ou do Rio.   As tais encostadas geravam [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=36&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align:justify;">Dorival sempre se sentiu desconfortável no escuro. Só dormia sossegado se sentisse em alguma parte de seu corpo alguma parte qualquer do corpo de sua mulher. O contato, por mais distante e superficial que pudesse parecer, era primordial para uma boa noite de sono nos calores da Bahia ou do Rio.  </p>
<p>As tais encostadas geravam serias discussões de tempos em tempos por conta dos suadouros da Dona Adelaide, pois quando o calor ficava do mais insuportável, era ela quem sentia desconforto no escuro com o contato pegajoso e constante do marido.</p>
<p>Dorival já tinha seus 94 anos bem expostos nos olhos caídos e perdidos, na cabeça obliqua com uma testa levemente avançada por uma calvície que não teimou muito em seguir adiante. O nariz redondo e acentuado para baixo quase escondia os bigodes brancos e desleixados que por sua vez não conseguiam esconder o sorriso sincero que sempre deu, desde de a época da juventude roubada pelas décadas que se seguiram. Estava há semanas sem dormir, varando madrugadas com os olhos perdidos no teto branco de madeira ou nas paredes cor azul-celeste impecavelmente limpas, assim como as cortinas sem um único vestígio de pó.</p>
<p>Acariciava carinhosamente o violão para espantar o desespero, tecendo algumas velhas melodias pra se proteger do medo. Pensava que novas canções eram por demais frágeis e poderiam ser consumidas por algum sentimento ruim, o que seria um pecado com sua obra imaculada em alegrias.</p>
<p>Dona Adelaide telefonava todas as tardes do hospital para escutar a voz do marido. Passava o dia deitada no quarto muito bem iluminado e tinha as narinas sempre acariciadas pelos perfumes diáfanos das flores que lhe faziam companhia, na falta de um dos três filhos. Não permitia que seu marido a visitasse devido à idade que lhe consumia sem tréguas dos pés à cabeça. Passavam bons minutos atualizando o dia-a-dia de cada um que na verdade não incluía nenhum evento de fato interessante, já que ambos já não tinham disponibilidade para grandes afazeres. O importante de tudo era ouvir a voz já acostumada na cabeça. Era um vício ter que escutar pelo menos a respiração nos dias em que os causos acabavam depressa demais.</p>
<p>Ela não ligava há dias e ele não ligava pra mais nada. Não queria mais saber de dormir e não deixava mais ninguém esfregar suas costas na hora do banho. Parou de reclamar das dores nos rins e ficava lembrando das broncas que ganhava por beber pouca água durante os dias com temperatura mais elevada. Deitou-se tranqüilamente após algumas horas agarrado ao violão desfilando melodias que mesclavam entre velhas e novas, numa apresentação final para público algum. Tinha a certeza de que era o certo a se fazer e estava bem com o fato. Faleceu às seis da manhã, quando já não estava mais escuro.</p>
<p>Dona Adelaide estava em coma devido ao coração já fraco dos seus 86 anos de trabalho, boa parte dedicado ao esposo. Os três filhos alternavam seus cuidados com as visitas ao pai que ia pouco a pouco se despedindo de seu violão e solidão. Optaram por não clhe contar do estado da mãe para evitar que o fato pudesse o afetar, sem saber que tentavam evitar o inevitável. Dona Adelaide nunca mais voltou do coma. Faleceu após 11 dias da morte do companheiro de toda a vida, depois de uma espera no limbo que separa os vivos dos mortos, se remoendo de culpa por deixar o seu Dorival só no mundo, já impedido de tentar desbravá-lo como tanto já o fez em sua trajetória encantada.</p>
<p>Dona Adelaide só se foi depois de saber, de alguma maneira, que seu querido homem já estava à sua espera em algum lugar.</p></div>
<div style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">Homenagem à Dorival Caymmi e Stella Maris.<br />
Obrigado pela magia.</p>
</div>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/abossanostra.wordpress.com/36/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/abossanostra.wordpress.com/36/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/abossanostra.wordpress.com/36/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/abossanostra.wordpress.com/36/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/abossanostra.wordpress.com/36/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/abossanostra.wordpress.com/36/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/abossanostra.wordpress.com/36/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/abossanostra.wordpress.com/36/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/abossanostra.wordpress.com/36/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/abossanostra.wordpress.com/36/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/abossanostra.wordpress.com/36/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/abossanostra.wordpress.com/36/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/abossanostra.wordpress.com/36/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/abossanostra.wordpress.com/36/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/abossanostra.wordpress.com/36/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/abossanostra.wordpress.com/36/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=abossanostra.wordpress.com&amp;blog=5144421&amp;post=36&amp;subd=abossanostra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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